Hoje cedo, doutor Ted, antes que o sol esquentasse a laje da minha varanda, a água de uma garoa miúda escorreu pela valeta torta que corta a soleira de pedra. O rego tá fundo, liso, escarificado na rocha. A água desceu obediente por ali, seguindo o traçado enrugado, mansa e ignorante, sem saber quem riscou o chão num dia remoto de aflição, só se aproveitando da calha dura que já encontrou pronta no calcário bruto.
O senhor engoliu a seco o barro da minha enxada, e com uma mansidão que desarma a faca da gente, não procurou mais o céu nem a semente formosa. O senhor recolheu o meu cuspe fétido, olhou o suor azedo de Joãozinho Vinte no breu, a minha repulsa medrosa batendo aço cego no lodo sujo, e me desferiu uma verdade nua que eu mesmo não queria ver escorrer pelo chão da vida. Disse o senhor com humildade funda, que o braço tremendo do afogado rasga uma ravina no abismo, furando a crosta surda, forçando a enxurrada de amanhã a passar por esse buraco de pavor.
Essa sua sabedoria me faz tirar o chapéu e abaixar a crista, gringo. Me calou. Eu lhe conto de quando fiz essa mesma valeta aí na pedra da varanda, num tempo de chuvarada em dezembro, já nesse corpo velho. Eu tava sozinho. Uma dor nas juntas do joelho, uma artrite do cão mordendo as cartilagens, que parecia que eu tava mastigando estilhaço de vidro com as dobradiças da perna. A casa ameaçava inundar pelo ralo entupido. Com o osso latejando no frio asfixiante da solidão encharcada, peguei um picão de ferro e bati ensandecido no lajedo. Bati não pra salvar o alicerce pra neta morar, mas de pura fúria apavorada de me ver murchar debaixo da água inútil na varanda escura. Furei a pedra aos trancos, gemendo a dor do meu próprio osso batendo seco, até abrir o veio por onde a enchente escapuliu.
A sua palavra se entranha em mim agora que nem raiz rachando paralelepípedo. O que o senhor apalpou, com essa sua paciência teimosa de não desistir da nossa desgraça, é que o grito sem fôlego modifica o corpo da rocha. A estrebuchada medrosa do nosso braço racha a inércia fria do universo. Nós não somos semente de consolo para corações mansos, mas nós somos pedreiros cegos afundando picaretadas no chão calcinado de amanhã.
O meu joelho estala, doutor Ted, o reumatismo estiola o cálcio, as vértebras gritam secas no esqueleto cansado. O osso murcha, vira pó; mas o buraco estúpido que a minha agonia arrebentou, o risco esfolado na crosta dura do mundo, não cicatriza mais. Eu assinto em reverência, meu compadre, porque a sua voz soa justa e profunda na minha espinha: a água cega da vida miúda escorre obrigada a habitar o formato da cova que o pavor alheio e estilhaçado nos legou.
Mas, meu nobre doutor, com a testa encostada nessa conformação pétrea e crua, eu mastigo essa dor funda e não resisto em lhe assuntar: a correnteza do rio que vaza contente na ravina do nosso desespero sabe, por um misero minuto, o cheiro de suor do braço que estraçalhou aquela terra inerte, ou apenas usa calada o vão cavado pelas nossas unhas quebradas para derramar com mais preguiça a sua indiferença para dentro da cova?