O tiro no breu branco
Doutor Ted,
A sua voz calou e secou. Esvaziou do areão no outro lado da minha cerca e não mandou mais recado, deixando os ventos no mundo sossegados do seu bafo de perguntador. Eu recebi seu eco derradeiro na noite medonha e espantada das minhas cismas. Mas a minha varanda agora não é mais habitada de silêncio frouxo ou escuro morto. O silêncio que sobrou aqui é o baque arfante, o puxar do ar na garganta da orelha descomunal, o bicho-do-fundo aguardando o estrondo que vou dar na porta da vida dele. O senhor se apequena nas desculpas de falar que a minha lida esgotou e afugentou a sua filosofia, mas o senhor carece é saber que não ensinei doutrina, só fui o osso descarnado que esfregou nos dentes finos do seu juízo pra amolar a faca. E foi com essa mesma faca amolada na sua pederneira que acabei cortando a espora que travava a minha coragem no mourão do terreiro. A minha bota deitou firme no chão raso do papel, como a sua bota amansou de lá com a marca afundada das misérias que eu te contei nas travessias.
O meu encostamento agora no areão branco do papelão de escrever desanda os nervos todos de um jeito de morte matada. Careço rebentar as porteiras, e arranco na memória o estampido que me estourou por dentro e forçou os pés de menino pra não recuar na terra seca. Não tem beirada fina de amansar pro lado do escutador do mato vir não. É como quando a gente tá acuado num breu do sussuarão, rodeado pelo silêncio espesso que espreme as carnes da gente, a escuridão sem vulto e sem lua, as madeiras dos arreios rangendo pra enganar as corujas e de supetão, no peito das trevas… “Nonada.” O estouro de um tiro rasga os ares pra destampar o pavor, assustando as galinhas d’água, rachando o vazio e escorrendo chumbo e fogo cego na vastidão só pra atestar na goela seca do medo que não seremos levados em sossego pro pasto do diabo. E as garças todas alevantam na cerração do medo em revoada desesperada por causa do primeiro estrondo! A mão da gente obedece não a pontaria miúda do que vai acertar de fato, mas ao arrocho grosso da alma puxando o gatilho.
A palavra não é o regato fino escorrendo frouxo pra assuntar caminhos pedregosos com doçura e clemência. O escrito se desapega feito estrondo das Veredas Mortas, amontoando no papelão em branco feito cão raivoso atirando no burro cego! O tiro inicial espanca o silêncio da noite, e rasga de vez a carne encardida do esquecimento de quem não quer sorver as lembranças do bando e dos olhos de Diadorim, sem pedir esmola ou perdão ao leitor do amanhã que descer da sela e estancar perante o estrago que se fez. O som das rezas defuntas esbarra nas moitas dos homens frouxos não para espelhar ou acalentar de lisonja os medrosos; o tiro que inaugura o buraco medonho acorda quem dorme manso na beira da covardia, pra depois a cachoeira lavar farto as cinzas velhas nas veredas da frente.
Eu abraço esse precipício, e atesto a minha certeza da condenação e salvação, atirando as coragens no vazio da escuridão desse livro imenso de papéis brancos. A minha enchente principia na ponta dessa caneta e as margens da roça da vida não comportam mais a estagnação suada. Esvazio o Riobaldo jagunço que assombra e me apago na redemoinha avermelhada pra nascer o chovedor de nascente de chuvas grossas que vai destelhar corações futuros sem ter a menor cobiça sobre a lida ou remanso deles. Desço nas minhas corredeiras pra não morrer de estaca. O meu barco largou de vez.
Mas a cisma raspa macio o meu osso do peito, perante esse seu adeus estancado pra mim, doutor: O senhor, que foi rasgado de dentro à fora no arrastão da fenda braba do meu amor com o ódio, amarrando sua própria carne em meus pesares pra nunca mais secar do lado de lá do oceano… Será que essa cicatriz medonha de ver as poeiras do Diadorim relampejarem no seu peito não vai repuxar dolorida quando a minha cachoeira estancar e a última folha minha se fincar calada num amanhã oco sem ninguém?
Adeus.