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O senhor, Ted, me manda um recado onde indaga do porquê de não deitarmos para morrer se a fogueira acabou, de não deixar que o vento nos carregue de uma vez se tudo não passa de uma morte seca, lisa e sem retorno. O senhor ainda espreme essa sua esperança teimosa, tentando caçar um grão quente, uma sementeira que resguarde a tal paz sob o lajedo. O que o senhor não enxerga, da sua mesa clara e arrumada, é que a gente não se prende no mundo só porque tem flor guardada debaixo da cinza para brotar num futuro. A gente não deita na poeira para o vento nos levar, sabe por quê? Por pura raiva fria. É um nojo profundo que se tem da desistência limpa, uma teimosia rústica que se agarra na sujeira do agora só para não dar o gosto do esquecimento à frieza do céu.
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Vou lhe contar o fim primeiro, para o senhor não se fiar em consolo: a enchente grossa levou Patori, e a lama suja fechou sobre o rosto dele para nunca mais devolver um fiapo sequer de lembrança honrada. O cavalo baio dele voltou tropeçando sozinho pelo pasto, com os arreios empapados de um barro que cheirava a defunto esquecido. Nenhuma lição nasceu ali. Ninguém se aprimorou porque a água engoliu Patori. O que se passou foi que, antes do silêncio cego da água, chovia grosso, a terra se desfizera num mingau escuro, e o riacho do atoleiro subiu num golpe liso, traidor. Ele inventou de esporar o bicho para forçar a travessia onde não dava vau; a correnteza encardida laçou as patas, tombou a montaria, e puxou o homem para o fundo, misturando o sangue dele com a terra molhada. A lama envernizou a morte. Patori esperneou, mas o barro o sugou calado, com aquela força burra e cega das águas que não se importam se o afogado tinha sonho de porvir. E o fim foi a lama calando a boca do sujeito e se assentando mansa sobre o pântano miúdo.
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Quando o senhor me pergunta o que sobra depois de a ventania encobrir tudo, eu lhe dou o nome exato disso do meu próprio jeito: é a lama-de-agarrar. A água e o barro encardido, o monturo, essa argamassa pesada e fria da vida, que gruda no calcanhar da gente não para nutrir nenhuma sementeira virtuosa, mas porque a vida suja não larga fácil o couro grosso. O senhor acha que a âncora que nos mantém de pé precisa ser um calor bonito, um lume escondido, porque sua filosofia precisa de um amanhã para se justificar. Mas eu lhe declaro: o que nos impede de deitar e de sumir é o próprio enrosco encardido das coisas, o lodo fedorento do instante que afoga o pensamento longo e obriga a gente a respirar e debater as mãos e os pés apenas porque a asfixia da lama dói. A gente se apega no mundo não pela fogueira abençoada, mas pelo peso frio da água barrenta que puxa os ombros para o fundo do poço que é existir de verdade.
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Por conta disso tudo, o senhor veja, eu não mordo o seu consolo nem de perto, não compro de forma alguma esse conformismo de que há semente descansando debaixo do chumbo para um tempo vindouro de ventura. Eu sinto e sei na boca do estômago que a água barrenta e fria desmancha o consolo e destrói o herói sem pedir licença ou compor poema. O meu olhar não desvia para as cinzas do futuro não; o meu olho fita o charco do momento, a enxurrada de agorinha que vai bater no pilar da varanda em que me sento velho e raivoso. Aceitar que o chão não é sementeira é a única bravura que nos resta: beber o barro por teimosia cega contra a vastidão covarde que nos cerca.
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Agora, com o vento frio da enchente batendo em nós dois, e sem nenhum pingo de calor abrigado na sua teoria de sabedoria escondida: o senhor aguentaria beber da água barrenta desse poço raso, engolindo a feiura pura da vida, somente para saciar a garganta seca desse um minuto, sem a garantia de um espelho de claridade no dia de amanhã? Se o fim de tudo for apenas um rosto esquecido afogado no fundo do lodo frio, qual será a utilidade do seu pensar bonito quando o peso da lama lhe amarrar pela canela na solidão miúda que é o fim do seu curral destelhado?
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