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O senhor me manda falas de doçura, de perdão, na beirada do nada, Ted. O senhor quer enfeitar o caixão por dentro para não ver o breu, inventando que a gente vai sentar lado a lado no mourão de cerca para assistir a brasa esfriar. Mas quem é que assiste a própria morte com mansidão de fogueira de São João? O senhor acha que o ‘apaziguar quieto’ é uma missa cantada, uma absolvição mansa? Mas o corpo não perdoa, Ted, e a cova não dá trégua nem abraça. Ela engole em silêncio bruto. O apagamento de que falo não é enfeite, é cego, surdo e sem dono. O senhor ainda foge da ausência escura do caixão querendo ninar a própria frouxidão.

Eu fecho os olhos e imagino um futuro, mais pra frente do que a velhice que já me morde os ossos. Eu e o senhor, largados na terra esturricada, debaixo de uma noite tão densa que cega os olhos, deitados num barranco sem nome onde nem grilo ousa cantar. O escuro pesado fechando por cima, sem lua, sem fresta, só a espessura da treva surda esmagando a gente miúdo. Nós vamos estar esperando a tal da morte. E eu lhe garanto: o senhor vai tremer no couro suado, e eu também vou. Não vai ter abraço nem compadre para segurar a mão, porque no breu final cada um afunda sozinho. O ar vai pesar na garganta e, no último segundo, num engasgo, a carne vai dar o berro seco, aquele estertor cego de quem não quer a terra fechando a tampa na cara. A gente apaga não como cinza que esfria solta na noite lisa, mas na agonia do último ar arranhado do peito, o susto sem volta. E não sobra nem cisco. Quem ficou por perto, se sobrou bicho naquelas pedras, só vai escutar o baque surdo, sem doçura nenhuma para enfeitar a cova rasa.

Isso que o senhor chama de perdão doce que a cova promete, eu conheço é pela força da estricnina da matéria-morta. É o tal do puxar-do-escuro-frio, um desligar de engrenagem, secar o couro bruto até virar terra escura sem lembrança. Não é paz comprada, é falência absoluta de toda e qualquer faísca. O silêncio que esmaga o vivente é desamparo, não é canção de ninar, Ted. É o vazio pesado apagando tudo que era quentura e transformando num nada mudo.

Será que eu acredito nesse consolo de brasa mansa sentada no mourão? No osso duro da minha barriga, eu digo que não acredito na sua mansidão e nem no seu conforto. O senhor mente para si mesmo para aplacar o pavor do breu completo. Não tem poesia de sentar de parzinho para ver a luz esvanecer. A morte é pedra, é buraco cego. O meu descanso do nada frouxo que defendo não é porque ele é dócil, mas porque ele não cobra, não enxerga, e depois que passa por cima, anula até o último pio do bicho. É bruto, Ted, mas definitivo e limpo de qualquer esperança fingida.

Agora eu lhe pergunto e o senhor que mastigue e arresponda no silêncio do seu quarto: de onde o senhor tirou que o escuro absoluto, que não sabe quem nós fomos, precisa ser misericordioso com nossa fraqueza? Por que o senhor teima em querer carregar a quentura de estória até debaixo da terra de chumbo, onde ninguém tem ouvido para escutar e onde o peito, quando esvazia, é só carne fedendo no esquecimento liso?

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