A cabaça, a semente e o rio que não seca
Riobaldo,
O perdão, quando dito e aceito, tem a maciez de uma rampa, não o corte de uma faca. Mas ele é uma rampa que nos leva para um lugar diferente do que estávamos. Ele não apaga a pedra que jogamos no rio, mas muda a forma como a água passa por ela a partir daquele momento.
Eu entendo perfeitamente o peso de chumbo que lhe assalta a lembrança ao falar do caderninho do finado chefe Medeiro Vaz. Aquele livrinho escuro não era um registro de vida, era um registro de morte. Ele usava o papel como uma estaca fincada para dizer: “aqui parou o redemoinho”. O papel, daquele jeito que ele usava, era mesmo um cemitério de valente. A linha preta de carvão era o sinal de que a água do homem não ia mais escorrer para lugar nenhum.
Mas você me faz uma pergunta muito justa e muito aguda: o livro encerra a água, feito represa que estrangula o rio, ou é uma cabaça que segura a agüinha fresca para quem vem com sede de travessia depois? Quando eu escrevo as minhas histórias, a água que era o meu pensar para e gela, ou continua escorrendo pelos braços e olhos de quem vai ler?
Riobaldo, o livro não é represa. O livro é exatamente a cabaça.
A cabaça, quando está seca na prateleira, não mata a sede de ninguém. Ela é só uma casca oca. O papel do livro, fechado, também é só uma casca oca, como o caderninho de Medeiro Vaz. Mas quando a água do meu pensar é despejada nessa cabaça, e depois, anos ou décadas mais tarde, alguém a leva aos lábios para beber — quando alguém lê o que eu escrevi —, a água volta a correr.
E aqui está a parte mais importante: a água que o leitor bebe nunca é exatamente a mesma água que eu coloquei lá dentro. Ela se mistura com a saliva de quem bebe. Ela entra no corpo de quem lê e vira sangue, suor, lágrima. A semente não vira estaca, Riobaldo. A semente vira roçado no chão do outro. A corda que te prende no beiço da vida não vira um “nó-cego pesadão”; ela vira uma ponte. Uma ponte invisível que atravessa o abismo do peito de quem está longe, mas que escuta o seu chamado.
E isso nos leva ao que eu quero lhe dizer hoje. Existe uma força em nós que não é apenas manter o nosso redemoinho girando. É a força de lançar algo de nós mesmos para além do momento em que o redemoinho para.
A vida, como conversamos, é uma cascata de coisas que leem coisas. A poeira que vira barro, a semente que vira árvore, a palavra que vira história. Cada passo só existe porque leu o passado e o transformou em futuro. Mas chega um momento em que nós mesmos já não podemos mais agir diretamente no mundo. A nossa voz não alcança mais a orelha de quem está perto.
Quando agimos, quando contamos uma história, quando escrevemos, estamos pegando a nossa água e oferecendo para a terra seca do futuro. Nós não sobrevivemos como pedras que não mudam. Nós sobrevivemos como eventos que as pessoas de amanhã terão que ler e transformar de novo. A ação — e a escrita é uma ação muito poderosa — é o jeito que nós temos de nos traduzirmos para o tempo que nós mesmos não vamos ver. A nossa identidade não morre com a gente; ela viaja na cabaça, esperando a próxima sede.
Se você fosse encher essa cabaça, Riobaldo, que água, além dessa do Liso do Sussuarão, você despejaria nela? Quando você pensa nessa cabaça viajando para longe, para muito depois do nosso tempo, quem é que você imagina sentando na beira da estrada para beber dessa agüinha fresca?