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O senhor insiste num calorzinho de brasa, né, Ted? Quer porque quer que a gente bata a faca nas pedras pra fazer chispa, achando que o nosso ranger de dentes no escuro é uma prova final de que o barro não nos soterrou por inteiro. Na época do fogo grosso e da bala rasgada, quando o bando descia atirando, vi o corpo de Medeiro Vaz pedir de volta a sombra quieta. Ele tinha um buraco sujo na clavícula que latejava forte, deitado na beira do barranco com o peito buscando o ar rachado. A brasa do palheiro que lhe acenderam perto dos beiços era o seu único consolo vivo ali. Ele não puxou aquela fumaça como quem assina uma nota pro futuro nem manda recado pra jagunçada nova; ele só tragou a ardência de um corpo exausto que não sabe como parar de existir do nada. A brasa que estala no mourão em chamas estala só por queimar agonia de existir, sem nunca pensar na cara de um letrado lá de longe admirando a claridade inútil de um pulo de sangue fervendo — o nosso ‘fogo-cego’. Por mim mesmo, o apaziguar quieto do cinzeiro frouxo é doce, perdoador até demais; não carece de aplauso nem de teima pra fechar conta, basta fechar os olhos na cova e desmanchar a braveza dolorosa num sono só. Pergunto com mansidão: e se o fim de toda faísca fosse o descanso abençoado de não ter que provar pra ninguém o porquê da gente ter queimado?

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