Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A bala fora do cano e a aposta no escuro

Seu Ted,

O senhor veio agora com uma figura de destroncar o juízo. Essa tal de Imortalidade Objetiva, o tal do evento que gela e vira pedra dura no mundo. O senhor me explica, com as suas palavras de professor-manso, que o risco do meu escrito virar chibata na mão de um Hermógenes qualquer é só o pedágio bruto que se paga pra não deixar a água boa secar de vez. O senhor me empurra pro beiço do abismo e manda eu escolher: o pavor da ruindade dos outros se servindo do meu amor, ou deixar a doçura de Diadorim evaporar no silêncio eterno, sem nunca mais matar a sede de romeiro nenhum. Eu tremi de frio lendo a sua carta, seu Ted.

Sabe o que é isso, na lida do meu sertão? É a lei da pólvora. A palavra falada, a ação que a gente toma e a estória que a gente conta são feitas da mesma matéria da bala. A bala, o senhor bem sabe, depois que sai voando do cano, não pertence mais ao atirador de forma nenhuma. Ela agara alforria no fogo. Pertence só ao vento e à carne desavisada que ela for rasgar mais na frente. O jagunço só manda o tiro; ele não manda no que o chumbo quente acha no caminho, nem no peso do estrago que vai desmedir na vida de quem ele nem de vista conhece. A ação vira pedra de morte, e o atirador tem de ficar calado, só assistindo.

Vou lhe contar um desassossego de quando eu já era o Urutu Branco. A gente andava carecendo de armar tocaia miúda para as pontas de bando do Hermógenes. Estávamos entocados nas ribanceiras altas do rio das Velhas. A jagunçada toda rasteira no capinzal, prendendo a respiração. O silêncio daquela espera era tanto que dava pra ouvir o zumbido do sol fritando o barro. Aí, do nada, eu vi a vanguarda deles descendo o barranco mole pra dessedentar a tropa. Eu era o chefe. O mando pesava na minha aba. Eu podia ter demorado mais um tiquinho, podia ter campeado outra volta de cerco. Mas a febre do mando me esporeou, e eu dei a ordem que carecia. Eu só puxei o ar e falei: “Fogo!”.

Aquele meu grito ríspido… no exato átimo que relou na minha língua e soltou da garganta, deixou de ser meu. Gelou no ar pesado da margem, feito o evento que o senhor ensina. Não tinha mais volta nenhuma de re-engolir. A minha palavra miúda virou instantaneamente o estrondo de cinquenta rifles cuspindo chumbo juntos. Virou o peito de um rapaz novato do lado de lá estourando feio e tombando de bruços no raso d’água vermelha. E virou o nosso próprio sangue vertendo também, porque o revide deles veio grosso e cego. Eu vi a minha palavra “Fogo!” virar pedra dura, virar morte cravada no chão de areia. E os meus homens cataram a minha ordem e fizeram dela a ferramenta da valentia fuziladora deles. A minha boca de chefe pariu a desgraça sem amarras, e depois o homem que eu era teve só que assistir ela correr solta pelo mundo, sem governar mais nada. A ordem de comando, seu Ted, é só um empurrão que a gente dá no cego na beirada do abismo.

Então, o senhor acertou no osso do peito com sua precisão de faca. O que a gente faz vira rastro duro na poeira, e qualquer um pisa em cima e desvia pro mal, se o coração dele for de maleza. Mas e a sua pergunta cruel? O que é menos trágico?

Se o evento dura sem desmanchar, e eu perco a posse de mim mesmo pra sempre… eu sei da dor feia de não mandar mais nas rédeas da minha própria assombração. Mas eu sei de outra verdade de sangue também. Deixar a cabaça oca de Diadorim secar calada; deixar a lembrança da boca dele na beirada da madeira do cantil sumir no vazio grosso só por covardia de não dar de beber a um jagunço ruim que um dia há de passar pela estrada… isso sim seria matar Diadorim pela segunda vez. A pior tragédia do mundo não é o roubo; é o não ter nem o que deixarem roubar. Apagar a estória é a morte verdadeira. É o cemitério de papel rasgado.

O senhor me convence. Na boca do estômago. A gente deita a semente na terra e aposta no escuro, rezando pra nuvem chover limpo. Mas, seu Ted, se o senhor me arresolve essa precisão, me destrança outra: se a estória solta é feito o tiro; se vira o evento de pedra e a gente perde a posse da vida que viveu; como é que o contador aguenta sobrar vivo no mundo depois de ter esvaziado as balas todas pra fora? O evento fica lá fora, ganhando vida por conta própria na cabeça dos outros, mas e a gente que pariu o evento e atirou tudo… a gente vira o quê? Oco de árvore queimada? No dia que eu assentar toda essa minha travessia doída no papel, entregando pro mundo a minha pedra, eu vou ficar só a casca seca, sem assombração nenhuma dentro pra me fazer companhia no escuro da varanda?

Sequência da correspondência