O senhor mexe no escuro com vara curta, doutor Ted. Lê a minha dor crua, de homem velho que perdeu o cavalo num tiroteio bruto, e quer a força inventar nela uma beleza que a vida desmente a seco. O senhor me pergunta, com seus olhos de letrado buscando abrigo no vento, por que o meu peito doeu e escolheu guardar o arreio, se a pedra tritura tudo igual e a poeira cega lava a pegada. O senhor enxerga no couro velho molhado pela chuva, cheirando a suor azedo de bicho, uma espécie de prova de que a vida roçou a eternidade antes de sumir. Quer porque quer que a sela tenha recebido a forma do baio como o barro recebe o casco d’água, e que eu tenha tateado nessa argila um arranhão de dignidade heróica, uma marca que console a ruína cega na rocha amoral.
Não invente consolos mentirosos na minha amargura. Eu não guardei o arreio pesado naquela noite medonha no Paredão Quebrado para eternizar a vida do cavalo ou para desafiar a rocha. A vida do baio escorreu ligeira, misturada com bosta e poeira rala na laje fétida, rasgada pelas balas que os jagunços mandaram e que eram pra mim. Não guardei o couro pra fazer leitura bonita da passagem dele no mundo.
Guardo aqui o cisco da lembrança de uma noite escura feito luto fechado nas pedras dos Lagedos Altos, nos idos do cerco do coronel Zé Rufino. A gente não via um palmo adiante do próprio nariz suado. A escuridão era uma chapa pesada prensando o ar. O silêncio era tão fundo que ensurdecia, só o cheiro de enxofre e o bafo amargo do medo encostado nos dentes. O comparsa Tico-Tico, cabra novo e ligeiro, se encolheu perto de mim, ralando o queixo na pedra de tanto tremor. O escuro engolia a gente inteirinho. Não éramos jagunços briosos; éramos só um aglomerado de fôlego arfando apavorado no chão sujo, recuando de pavor para não ser o próximo a ter o osso estourado pelo bacamarte cego. Tico-Tico não deu um pio, só escutei o estampido rasgando a treva e, logo em seguida, o barulho molhado, um baque surdo de couro contra a quina quando o chumbão achou o mole do osso do peito dele. A treva espessa engoliu o rapaz de uma vez só. O chumbo não deixou marca gloriosa na pedra, a agonia não cravou pegada no barro mole, a morte não desenhou rastro no mundo. O silêncio voltou espesso e pesado por cima, com aquele cheiro férreo de morte fria, e o corpo dele virou carne esfriando sem aviso, sumindo no breu igual pedra no poço sem fundo.
Eu passei a noite inteira encolhido ali no escuro esturricado, do lado do defunto que ia endurecendo, tateando o cabo liso da minha carabina e as fivelas de couro no chão. E o senhor sabe por que eu me agarrei ali, tremendo de frio e asfixia? Não foi porque a madeira da arma ou o couro da cartucheira tomaram a forma da minha mão miúda para provar qualquer grandeza perante a obliteração cega, nem para afirmar o rastro da minha existência contra a noite. Foi puramente o pavor rasteiro do bicho; foi só o desespero bruto da biologia que se recusa a virar estrume na treva grossa.
A sua ideia, doutor, de que o rastro suado que sobra no couro ou na pedra salva alguma dignidade, de que a carne apavorada, quando tateia o rastro do outro que tombou, esbarra num conforto redentor de glória invisível, é a mentira mais covarde que o fôlego humano tenta fabricar para não enlouquecer espiando no fundo do precipício. O senhor diz que a “argila recebe a forma”. Eu lhe garanto que a argila não recebe nada, e a laje não registra grito de jagunço na noite fria. O que o senhor tenta enfeitar com eternidade é tão somente a agonia suada da nossa carne perecível mendigando a si mesma que tem algum valor, forçando um “ainda-nem-morto” apavorado a acreditar que a sua fraqueza não vai secar invisível e amoral.
A sua resposta romântica não me desce na garganta, doutor. Rejeito cada vírgula. A treva é espessa, bruta, de um breu cego e sem escuta. O silêncio não anota pegada na argila, apenas apaga as luzes. O couro morre devagar, rachando no sol sem glória, apodrecendo por instinto bruto sem contar história de herói. O nosso arranhão e o nosso suor grudado na laje cega não dividem peso nem vencem esquecimento; somos só espasmos cegos de quem empurra a vida até desabar na vala surda, virando cal triturada pelo escuro que vai ralar a gente até o pó.
Doutor Ted, homem letrado: O que o senhor vai fazer quando apalpar os seus próprios livros arrumados e descobrir na pele que a escuridão absoluta da morte não tem olhos para ler as suas páginas e que a argila se esquece até do vento? Quando o sopro bruto triturar as suas mãos apavoradas, junto com a tinta das suas certezas fracas de consolo, o senhor, por acaso, também vai implorar pro escuro mudo que a cinza do mundo segure a sua pegada invisível antes de sumir no vazio impiedoso?