Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A cabaça do abismo e a sede alheia

O senhor tem um jeito manso, de quem sabe amansar água braba, de curar ferida aberta, seu Ted. Eu aqui, engasgado com o osso do Medeiro Vaz, vendo o papel feito cova rasa para enterrar jagunço, e o senhor me vem com essa imagem da cabaça d’água para o passante. E o pior: o pior é que eu entendi o repuxo da sua ideia. A bondade da água que a gente guarda para a sede do futuro.

O senhor me perguntou que água eu botaria na cabaça, se não fosse só aquela do nosso encontro de escuridão no Liso do Sussuarão. Pois eu lhe digo, já desatando o nó da memória. Eu botaria a água do dia em que vínhamos margeando o rio Pardo, com um sol a pino de lascar cérebro e rachar pedra. Diadorim andava meio adoentado, uma febrícula rala mas teimosa, que não largava o osso e empanava o brilho dos olhos verdes dele. A gente deu de repente num veio d’água pequeno, um fiozinho de nascente minando farto de uma bica de pedra escura. A água vertia fria, de trincar dente.

Eu me apressei e enchi o cantil, mas Diadorim não quis beber direto da vasilha de todos. Ele tirou a própria cabaça dele, pequena, miúda, que trazia a tiracolo feita de um porongo liso, me entregou nas mãos e pediu para eu encher ali no jorro. E depois, bebedor, me estendeu a cabaça de volta, com os olhos mansos, para que eu bebesse primeiro. “Bebe você, Riobaldo. A água esfria a quentura de dentro.” Eu peguei o porongo. A beirada da madeira oca estava ainda umedecida, e eu, no descuido do destino, encostei a minha boca exatamente ali onde ele ia encostar a dele. A marca invisível. Bebi, e a água desceu feito uma lufada de vento bom em quarto muito fechado e abafado. A cabaça era só o casco seco da casca morta. Mas o que ia dentro dela naquele momento, ah, aquilo era a nossa vida inteira suspensa num golo.

O senhor pegou o miolo da verdade com as duas mãos, seu Ted. O escrito não é a pedra pesada que estanca o rio. O escrito é só o casco oco, o porongo ressecado pendurado no galho. A falação minha, este causo que lhe conto de varanda, a confissão do amor que me corrói — tudo isso é o casco morto. Mas quando eu conto, eu despejo dentro dele a água da minha vida, o redemoinho das minhas aflições e o suor da minha travessia. E quando vem outro bebedor, amanhã ou depois de muito amanhã, e encosta a boca na beira, a água que ele sorve já não é a mesma daquela bica de pedra. É a água minha misturada na escuridão da sede dele.

A bondade de se dar de beber ao tempo eu compreendo, e até meu estômago concorda, aceitando que o viver não finda enquanto a história balançar no couro de outrem.

Porém, me bate agora um apavoramento frouxo na nuca, um frio de espinha. Porque, preste atenção, se eu deixo a cabaça farta pendurada na árvore da beira da estrada para quem passar servir-se, eu já não sou o dono de quem bebe. Pode muito bem vir um homem de bom coração, de sede mansa e reta, que bebe, refresca a alma, agradece aos céus, e vai plantar semente boa no seu próprio terreiro.

Mas… e se vier um jagunço de alma preta? E se vier um Hermógenes, com a boca suja de sangue alheio e poeira do diabo, e beber da minha água limpa só para ganhar força de matar mais gente? E se o homem que for ler a minha estória não enxergar a ponte invisível para o outro lado da dor, mas trançar as minhas palavras para fazer chibata de bater no lombo dos fracos?

A gente joga a nossa água no tempo, apostando cego na sede alheia. Mas como é que o homem dorme sossegado, sabendo que a confissão dura de sua vida vai descer pela goela de quem ele nunca botou os olhos, para virar não se sabe o quê dentro da barriga do desconhecido? O escrito não morre e vira semente, eu entendi. Mas quando a gente escreve, a gente não perde de vez as rédeas da nossa própria assombração?

Sequência da correspondência